Freitas tem 21 anos e é vocalista e guitarrista das bandas Made in Seattle, E aí, broto?, Último Romance e Lisbela (músicas autorais).
Como surgiu a vontade de ser músico?
F: A vontade de ser músico veio, acho que como a maioria dos amigos que tenho, de berço mesmo. Minha mãe tocava violão, minha irmã, tinha tios que mexiam com isso também… Não é algo que se escolhe, você meio que segue isso de forma involuntária. Pura paixão. Como eu já tinha uma veia musical, foi mais fácil. Desde criança sempre gostei de cantar, sonhava em tocar bateria e guitarra e aos poucos isso foi se tornando verdade.
E quando começou esse empenho?
F: Falando de empenho, de forma mais profissional, eu acho que deve ter apenas uns 5 anos, algo como isso. Antes tudo era só diversão. A partir do momento em que começa a envolver dinheiro, exigir maior seriedade e compromisso, acho que vira trabalho.
Quando você começou a perceber algum retorno e a seguir profissionalmente com isso?
F: Na verdade, eu nunca pensei em parar. Ia tocando por puro prazer e com o tempo ganhou dimensões que eu não planejei. Começaram a surgir shows de uma forma mais regular. E até agora não tenho pensado muito em desistir. Mas como eu já disse, de uns tempos pra cá tem virado algo com mais seriedade e, às vezes, até exaustivo, mas é muito bom. O retorno financeiro é bem baixo, mas tem coisas que você ganha que não tem preço.
Que tipo de investimento isso exigiu da sua parte?
F: O investimento nisso tudo, da minha parte, não foi muito concentrado em aulas, ou aprendizado. Comecei sozinho, minha mãe me ajudou um pouco no começo e com as revistas que comprava na época e tudo mais fui aperfeiçoando. Hoje com a internet já é bem mais fácil. O que acaba saindo caro é a compra de instrumentos, manutenção, ensaios, transporte pra shows… Pra mim, pesa nesse ponto.
Como você se julga no cenário de musica do Piauí? Reconhecido? Satisfeito? Ou ainda correndo atrás?
F: Eu acho que quem deve me julgar dentro dos cenários são aqueles que já fazem parte há mais tempo que eu, aqueles em quem me espelhei talvez. Eu gosto do que tenho feito hoje e me sinto satisfeito com o respeito que ganho do público e até de alguns músicos que sei que são melhores que eu. Mas morando em Teresina e com a dificuldade que é pra ser músico e todo amor que isso envolve, sem dúvidas eu ainda estou correndo atrás e acho que vou correr até o final da vida
O Piauí é o limite?
F: O Piauí não é o limite pra mim. Como grande parte dos músicos, sonho ainda em ter um trabalho autoral reconhecido fora daqui. E acho que nem deve ser o limite pra ninguém, a música daqui é muito boa pra ficar trancafiada e receber tão pouco incentivo. O povo de fora precisa conhecer mais desse nosso lado. E das apresentações que fiz fora, se nota que a expectativa que têm da gente é muito grande. Justamente por ser um estado musicalmente desconhecido pra muita gente.
Dá para viver de música? Apenas com shows ou outras atividades (aulas, workshops) também são necessários?
F: Sobre viver de música é muito relativo. Tudo depende de onde você está e da dedicação que dará a isso. Para quem mora aqui, atualmente, é bem complicado viver só da música. Geralmente você toca na noite com seus amigos, recebe um cachê baixo e a maioria deles tem um emprego paralelo ou faz um curso, que é o porto seguro, que realmente sustenta. No geral, não acho que as bandas daqui sejam bem pagas e é bem diferente de você estar numa metrópole musical onde tudo acontece e as oportunidades são maiores como em São Paulo, por exemplo. Há bons produtores, já tem um histórico de bandas grandes que saíram de lá, etc. Isso ocorre também em Brasília, Rio, Recife… Mas infelizmente no Piauí, ainda não.
Você acha que há espaço para se crescer no seu estilo musical ou teria que sair para alguma coisa mais popular?
F: Espaço eu acho que tem, sim, dentro de qualquer estilo. Depende do direcionamento que você faz da sua música. Mas claro que, estando no Nordeste, alguns estilos são mais facilmente absorvidos e têm um público esmagador em relação a outros. É o caso do forró e até do axé também. Acho que bem mais o forró. Mas acho que não é necessário apelar pra um meio mais popular pra conseguir espaço. Talvez só esteja no lugar errado, com o público errado. Hoje em dia se tem gosto pra tudo. Eu não me limito muito a um estilo. Eu gosto, no geral, de rock. Sei que não é algo passageiro e que sempre haverá público pra isso.
Há perspectivas animadoras?
F: As perspectivas são animadoras sim. Mesmo que não seja o gosto da maioria.
Eventos como o Piauí Pop, Teresina é pop, e vários festivais por aí tem ajudado a revelar novas bandas ou há alguma espécie de oligopólio das bandas por aqui?
F: Eventos como Piauí Pop e outros ajudam sim a revelar novas bandas, até porque atinge um público bem maior do que qualquer músico daqui esteja acostumado a ter, então sempre vai ter alguém vendo aquilo como novidade. Fala-se muito de panelinha em Teresina, principalmente com relação aos músicos mais experientes ou mais antigos. Na verdade, o começo nunca é muito fácil, você tem que correr atrás e ganhar certa experiência pra passar credibilidade pras pessoas. Claro que se você convive com pessoas que já estão nisso há muito tempo, fica mais fácil. Mas persistindo, hora ou outra todos acabam tendo o seu lugar. Considero a Lisbela uma banda nova e este ano nos chamaram pro Piauí Pop. Foi uma votação que fizeram e jamais pensei que entraria no meio do evento. Foi uma surpresa pra mim. Não sei se sou influente de alguma forma a ponto de ter interferido na votação ou escolha das bandas pela produção. As oportunidades pras bandas novas têm crescido muito dentro desses eventos. Nessa questão de oligopólio de bandas, o que acontece é que todo produtor de festas quer retorno no que faz, então fica mais fácil pôr as bandas mais aceitas e reconhecidas pelo público. Lembro que quando eu comecei, eu mesmo fazia festas com meus amigos, pra que minha banda tocasse, já que ninguém chamava. Com o tempo, você acaba conhecendo pessoas e sendo reconhecido pelo público também. Mas não há de fato esse “oligopólio” de bandas. Talvez já tenha tido. Hoje se trata mais de um ciclo vicioso entre produtores e bandas e retorno financeiro.
Musica autoral piauiense tem espaço, mesmo que seja nas rádios locais, elas tocam?
F: As músicas piauienses têm espaço aqui sim. Algumas rádios divulgam muito o trabalho autoral das bandas aqui do Piauí. Não sei se o público absorve essa música como deveria ou na quantidade certa, mas esse espaço em rádios tem crescido com o tempo.
Há algum tipo de apoio às novas bandas? Governamental ou particular?
F: Para bandas novas, eu não sei ao certo que tipo de apoio há por parte do governo ou de alguém de fora que se preocupe com isso. Mas temos o clube dos diários, temos a FUNDAC, etc. Projetos que pagam bandas e dão a elas oportunidade de mostrar seu trabalho a um bom público e também projetos que ajudam na gravação de CD. Um CD sai muito caro, mas com a lei A. Tito Filho isso fica mais acessível, por exemplo.
Postado por Laís Lustosa (laislm@hotmail.com)
